" O grande vilão da crise de água é o desmatamento": Luziano Carvalho
Matéria publicada em 04/05/2015, às 14:57:15

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O Dr. Luziano Carvalho, titular da Delegacia Estadual do Meio Ambiente de Goiás, aos 30 anos de carreira na Polícia Civil, tem na dedicação à DEMA um largo histórico de serviços prestados. Defensor intransigente da natureza, Luziano já realizou centenas de intervenções em favor do meio ambiente, não só autuando infratores, mas também recuperando áreas degradadas como já ocorreu por diversas vezes em Anápolis, em alguns casos, com a participação direta da Planeta Água.
Odilon Alves com o Dr. Luziano Carvalho reflorestando a cabeceira do córrego Água Fria, em Anápolis, com 2 mil mudas em 2002, um trabalho desenvolvido pelo delegado desde muito antes em todo estado de Goiás
Você se dedica mais ao meio ambiente ou à questão da segurança?
Como titular da Delegacia do Meio Ambiente, tenho que me preocupar com a crise da água, uma crise que assola o País, embora não me descuide da questão da segurança. Tanto na segurança, quanto na crise da água acredito haver meios de prevenção. A área ambiental é eminentemente preventiva e temos condições de ainda deixar preservadas as áreas boas e recuperar as que foram degradadas. Claro que temos situações irreversíveis, mas temos também as perfeitamente recuperáveis sem qualquer dúvida.


De que forma, quais são esses meios de preservação?
Faço questão de afirmar o que tenho dito sempre: o maior mal da atualidade neste País é a cultura da ignorância, do desmatamento, da destruição. Ao longo do tempo vimos ignorando estudos científicos pelos quais destruir e desmatar seca as águas. Há quem diga que nascente não seca. Mas se tem uma nascente em uma região, o desmatamento fará com que ela vá baixando, migrando, mudando de posição, até desaparecer por completo, em muitos casos de forma irreversível. Temos dezenas de exemplos que comprovam essa realidade, inclusive na bacia do ribeirão João Leite, principal alimentador do abastecimento de Goiânia, onde estamos lidando com algumas dessas situações.

Quando teve início o trabalho na bacia do ribeirão João Leite?
Iniciamos o levantamento há algum tempo. A nascente principal da bacia do João Leite, localizada no município de Ouro verde, já está pronta, recuperada, cercada, reflorestada. Infelizmente constatamos que 23 outras nascentes daquele manancial sofreram danos irreversíveis. Uma foi do tipo desmatamento que faz com que a nascente vá migrando até secar. Agora estamos buscando um compromisso, uma integração, principalmente com o produtor rural, mexendo na sua sensibilidade. O curso e o programa que apresentamos recentemente é muito simples. Basta cercar a nascente, onde está aflorando a água, para se contar com o poder e a colaboração da própria natureza que regenera naturalmente a sua cobertura vegetal. Isso vai melhorar e muito. Portanto estou muito otimista, cheio de esperança.


Qual é o trabalho a ser feito no caso das nascentes irrecuperáveis?
Levantamos dezenas delas, algumas no município de Anápolis, na zona urbana onde casas foram construídas nas encostas situadas na microbacia do córrego Catingueiro, principal afluente do ribeirão João Leite. Muitas delas estão ameaçadas por toneladas de lixo e entulho. toneladas. Como desapropriar essas áreas? Seria esse o melhor caminho? De qualquer forma, vejo que ali o dano é irreversível. Mas mesmo assim, a natureza é sábia. Em um determinado momento você pode retirar essas invasões e trabalhar na recuperação, mas parece que tal providência não é oportuna nesse momento. Temos que cercar as nascentes ainda preservadas e recuperar as outras que ainda têm condições de serem melhoradas.


Educar ou punir? O que é mais eficaz?
Claro que a punição e a fiscalização são os primeiros passos, os mais eficazes. Mesmo porque o Brasil ao longo do tempo, ou seja, desde 1934, possui as melhores leis ambientais. Hoje o que chamamos de APP (Área de Preservação Permanente), chamavam de florestas protetoras das águas. Mas nunca se cumpriu, ou seja, temos que analisar a falta de fiscalização, de monitoramento e de punição. Mas não pode parar por aí. Temos que analisar que a maior cultura nossa hoje é a conscientização, a educação. Qual é o problema de se ter punição e conscientização juntas? Quem disse que a Polícia Civil de Goiás não está elaborando inquéritos, batendo recordes sucessivos nesses procedimentos encaminhados ao poder Judiciário? Só na bacia do João Leite encaminhamos, entre 2009/2011, 55 procedimentos. Ou seja, construções em áreas não edificáveis, hortaliças em áreas de APP, psicultura, frigoríficos, lava jatos, extração de argila e essa questão da agressão às nascentes. Quer dizer, encaminhamos para o poder Judiciário, muitas situações que já foram resolvidas. Jamais vamos alimentar o crime ambiental. Mas a educação vem em primeiro lugar, sem dúvida. Sem educação não tem salvação. Como delegado, atuo na esfera penal. Então, tenho que agir conforme a lei 9.605 e demais leis que falam justamente da atribuição da Polícia Civil com encaminhamento para o poder Judiciário ou Ministério Público. Também temos que ter estreito relacionamento com os demais órgãos como a Secretaria de Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos, com os órgãos municipais de meio ambiente e demais instituições afins. As secretarias, os órgãos ambientais, a Saneago e, principalmente, com a sociedade. Mas nunca é demais lembrar: acima de tudo isso, temos que ter educação. Claro que os órgãos ambientais possuem a atribuição administrativa de aplicar multas e não me compete comentar sobre isso.


O que se conseguiu de avanço na recuperação do rio Meia Ponte?
As nascentes principais do Meia Ponte estão protegidas, recuperadas desde 1999. Há uma nascente principal, em Itauçu, uma outra em Goianira e outra em Santo Antônio. Nossa visão é recuperar a principal nascente porque naturalmente a sociedade recupera o resto. Mata ciliar temos vários quilômetros, assim como dezenas de nascentes prontas. Posso dizer que no caso do alto Meia Ponte, ou seja, antes de Goiânia, a situação é muito melhor do que o que víamos em 1999.


É possível acreditar na despoluição total do Meia Ponte a exemplo que foi feito com o Tâmisa e o Sena?
No que diz respeito a mata ciliar, a nascentes da cobertura vegetal, posso dizer que o Meia Ponte está recuperado. Porém, temos leis prevendo que todo empreendimento que produz efluentes poluidores não pode fazer o lançamento dessas substâncias diretamente nos mananciais sem o devido tratamento. Enquanto os efluentes produzidos não forem tratados, evidentemente continuará a poluição. É um grande equívoco da nossa cultura histórica dizer ‘Vamos atrair empresas e mais  empresas, novos empreendimentos, novos investimentos. Que venham, que  poluam nossos rios, que nós tratamos’. Na verdade quem tratou foi a própria natureza. A qualidade da água que chega hoje ao rio Paranaíba é bem melhor do que a que sai de Goiânia porque a própria natureza tratou. Acredito que possa ser tratado todo esse esgoto com muita qualidade.


Qual é a realidade das nascentes da cabeceira do rio Araguaia?
A nascente principal do Araguaia está totalmente recuperada. Antes já fora até uma pocilga. Fomos ao local, falamos com o proprietário e isolou-se aquela área. Orientamos para que se fizesse uma reserva legal naquela região e limpamos a nascente com escarpa da serra. O proprietário, com nossa sugestão, criou um corredor ecológico ligando a nascente do Araguaia ao Parque das Emas. Isso é de uma grandiosidade tamanha. As grandes voçorocas, a principal delas em solo goiano, denominada Chitolina, estão totalmente estabilizadas. Mudamos o nome, homenageando o proprietário e hoje chama-se Nascente Recuperada Milton Frias que já faleceu mas que foi o maior aliado da Polícia Civil na região com a homenagem sendo feita ainda em vida. As cabeceiras do Rio Araguaia estão bem. Às margens da Serra do Caiapó, 30 quilômetros na borda da chapada, foi feito isolamento com plantio de árvores. É uma realidade muito diferente do passado. Acredito no envolvimento da comunidade e dos produtores rurais, com mudança de comportamento, com nova cultura de grandes produtores de grãos da região.


O que provoca a crise da água: falta de chuva ou de investimento?
Acredito que tem outro fator, o principal deles, o desmatamento. Desmataram as cumeeiras, que são divisores de água onde a água da chuva infiltra e depois brota. Estamos trabalhando para recuperar as nascentes, mas daqui a pouco as “inteligências” vão descobrir que temos que recuperar esses divisores de água. Quando se tirou a cobertura vegetal das cumeereiras do Planalto Central, tirou-se também o ciclo complexo da própria natureza. Água de chuva tem duas finalidades: ou infiltra ou evapora. Nunca pode fugir, correr, ir para o manancial ou para o mar. Então temos que trabalhar para reter água de chuva. É questão de investimento. Agora, o grande vilão da crise de água é o desmatamento.

O que fazer para eliminar os lixões a céu aberto?
O primeiro mecanismo chama-se educação. A coleta seletiva em Goiás só foi implantada recentemente e em Goiânia está em fase embrionária. A sociedade tem que participar. É educação ambiental. Toda residência tem que ter dois recipientes, para material reciclável e orgânico. Se um vai para reciclagem o outro irá para a compostagem para virar adubo, não precisa de aterro sanitário. Precisa de aterro para o que sobrou. Esse é o caminho que vai ter que ser tomado. Indiciamos 132 prefeitos por fazer a disposição inadequada dos resíduos sólidos dos municípios. Vejo que todo mundo está se movimentando, prefeitos, Ministério Público, órgãos ambientais, para buscar uma solução. É gravíssima a questão dos resíduos sólidos urbanos em Goiás e em todo o Brasil e, nessa hora, não podemos ficar de braços cruzados.


O que você destacaria dentre as ações à frente da DEMA ao longo de todos esses anos?
Confesso que tive várias situações extremamente graves. A gente não pode ter piedade, mas existe muita ignorância por aí. Fico trieste ao ver uma pessoa que tem dentro de sua casa dezenas de cachorros e gatos. A população desesperada e a pessoa aplica tudo o que ganha na manutenção de animais. Vejo com muita tristeza, mas não tem solução. Para onde vamos levar esses animais? E tudo isso só acontece porque não tem educação, há planejamento. As pessoas saem de férias e abandonam os animais. É extremamente grave. Por outro lado, vemos frigoríficos lançando resíduos em nascentes. A questão do agrotóxico, do defensivo agrícola, é gravíssima. O veneno acaba indo parar nos mananciais de água e, consequentemente, nos alimentos.


Você já pensou em ser político?
Neste ano de 2015 completarei 30 anos de carreira como delegado. Mesmo tendo familiares políticos na minha história de Jataí, quero rogar muito aos meus amigos e à toda a minha família para que não me deixem entrar na política. Quero realmente marcar minha passagem na história de Goiás como delegado de polícia.

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