"Com educação, todos os outros benefícios virão": Amaury Gerin de Amorin
Matéria publicada em 19/08/2014, às 10:58:48

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A história de Anápolis é feita por personagens as mais diversas, a maioria delas comprometidas com o bem da cidade e de sua gente. Entre essas personagens está o tabelião e ex-vereador Amaury Gerin de Amorim, o mais antigo tabelião da comarca. Filho de Almiro de Amorim e Sirene Gerin de Amorim, Amaury é natural de Araguari (MG) e foi casado com Cirene de Amorim (in memorian), com quem teve quatro filhos: Luiz Otávio, Humberto, Amaury e Irene Cristina. Veio para Anápolis aos sete anos de idade e conta: “Meu pai era comerciante de arroz naquela cidade mineira e, com o retorno do irmão dele, o Dr. Odilon de Amorim que era o líder da família para o Rio de Janeiro, resolveu vender tudo o que tinha na empresa e ficou como que desempregado. Aí, o Dr. Genserico Gonzaga Jayme que foi cunhado do meu pai no primeiro casamento – papai foi casado com Marieta Jayme, filha do Desembargador Jayme – o convidou para vir para Anápolis dizendo que haveria uma vacância no Cartório do 2º Ofício de Notas com a ida de Publius de Souza para Goiânia. Esse foi o motivo maior de nossa vinda”. Dentre os 12 netos, Amaury conta hoje com a presença constante em seu trabalho do jovem Paulo Augusto, filho de Irene Cristina. “Estudioso, Paulo Augusto é acadêmico de Direito onde entrou mediante uma ação por não ter concluído o segundo grau e a quem estou preparando para enfrentar um concurso quando eu estiver me aposentando”, revela Amaury Gerin de Amorim, o nosso entrevistado nesta edição especial do aniversário de Anápolis.

Seu pai veio para assumir o Cartório do 2º Ofício de Notas ou isso ocorreu depois?

Papai veio do Rio de Janeiro, morou alguns anos em Araguari (MG) e depois veio para Goiás com a família, aqui prestou concurso e foi nomeado 2º tabelião de Anápolis. Aqui iniciou sua nova vida profissional na Rua 7 de Setembro, ao lado da farmácia de Juquinha Roriz. No início da década de 1940, o então prefeito Manoel Demóstenes fez o Polo Novo da cidade e papai transferiu o cartório para o Fórum de Anápolis, na Praça Bom Jesus, que passou a abrigar todos os cartórios da cidade. Tão logo chegamos, comecei meus estudos no Colégio Santa Terezinha com a professora Tarsila Silva, depois nos colégios Municipal e São Francisco e passei então a ser líder estudantil. Fui secretário da União Independente dos Estudantes Anapolinos (UIEA) durante dois anos e depois presidente durante quatro anos, quando tive a grande honra e satisfação de localizar o Colégio Estadual José Ludovico de Almeida onde ele se encontra até hoje.
Naquela época os estudantes tinham força, voz e vez.
Tinham. Tinham também representação e entidades, fortes, bem constituídas e combativas e a de Anápolis, a UIEA – União Independente dos Estudantes Anapolinos - causava inveja a todas as outras do estado de Goiás. A entidade era poderosa e, por várias vezes, deixamos Goiânia falando sozinha. O Dia do Estudante, 11 de agosto, era respeitado e comemorado com grande pompa. Amanhecia o dia e a gente comemorava com a alvorada festiva e terminava com o grande baile no clube que era de propriedade dos estudantes.

Quais os contemporâneos daquela época que você poderia citar?
São muitos os contemporâneos daquela época. Fernando Cunha Junior, Henrique Antônio Santillo, Eurípedes Barsanulfo Junqueira e Adahyl de Amorim, meu irmão que era cirurgião dentista e tinha ideais comunistas o que o fez sofrer muito vindo a falecer cedo, talvez pelo sofrimento causado pela revolução. Acho que isso enfraqueceu o coração dele. Acho.

Quando você tomou posse no Cartório?

Prestei o concurso para tabelião para a Comarca de Santa Cruz de Goiás, vizinha às cidades de Palmelo e Pires do Rio. Inclusive o juiz de Santa Cruz era titular da Comarca de Pires do Rio. Fui para Santa Cruz contando com o apoio do Serradourada que era partidário do governo do estado com apoio do deputado de Anápolis, que era o Plínio Jayme e que o indicara para chefe político daquela região. Naqueles tempos a política mandava mais do que tudo e o chefe político me aceitou como escrivão de Santa Cruz, não obstante eu ser concursado para lá, o que não lhe dava condições de me impedir. Mas, política é política. Instalei o cartório, trabalhei e, mais tarde, meu pai completando 70 anos de idade cairia na compulsória o que hoje não acontece. Então, propus a ele a permuta, eu vindo para Anápolis e ele indo para Santa Cruz, onde se aposentou. Foi uma aposentadoria até interessante. Nós de Anápolis, Eurípedes Junqueira e eu, através da Associação dos Notários e Registradores que era dirigida por Índio do Brasil Artiaga, impetramos uma ação de inconstitucionalidade da lei que nos obrigava compulsoriamente a nos aposentar. Acabamos entrando com recurso junto ao Supremo Tribunal Federal e só o ministro Joaquim Barbosa votou contra, mas ganhamos. Estou no cartório há mais de 10 anos além do prazo que teria para me aposentar. Sou muito feliz pelo fato de poder trabalhar todos os dias aos 80 anos de idade e espero continuar fazendo o que gosto até os 90, pelo menos.

O Cartório do 2º Ofício de Notas de hoje não é mais o mesmo?

Como a população anapolina aumentou e continua aumentando significativamente, nos vimos na obrigação de ampliar e melhorar os nossos serviços, adequando e reaparelhando o cartório para que ficasse à altura das necessidades de Anápolis e pudesse atender com qualidade e agilidade. Informatizamos todos os nossos serviços, promovemos ampla reforma das instalações e hoje nos orgulhamos de poder atender bem a comunidade.

Tudo funciona a contento ou ainda existe algum empecilho para que o serviço prestado seja de excelência?
Um dos fatores que atrapalham o nosso trabalho são as falsificações de documentos. A bandidagem tomou conta do Brasil e os escrivães vêm sendo penalizados com a responsabilidade civil objetiva, sendo obrigados a pagar vultosas indenizações a quem sofreu o prejuízo provocado não pelo cartório, mas pelos bandidos que continuam agindo impunemente, mesmo com toda a comprovação dos crimes por eles cometidos. São rios de ações comprometendo as figuras dos tabeliães e oficiais como se eles participassem de toda essa bandalheira e, o que é pior, sem chances de se defenderem da prática dos crimes porque a lei que instituiu a responsabilidade objetiva e adjetiva não dá como causa a figura do dolo. Eu é que tenho que provar minha inocência, ou seja, há uma absurda e ridícula inversão do ônus da prova. Não temos nenhum direito a uma ampla defesa, não temos direito ao contraditório, nem ao reconhecimento legal com base no próprio Código Penal que diz: “O crime não passará senão daquele que o praticou”, e quem pratica esse tipo de crime são os bandidos que continuam à solta e nós continuamos sendo processados como se tivéssemos participado dessa pouca vergonha, o que desvaloriza o quadro de escrivães e oficiais no país inteiro.

“A bandidagem tomou conta do Brasil e os escrivães vêm sendo penalizados com a responsabilidade civil objetiva”

Quais são os tipos mais comuns de falsificação, Amaury?

Os bandidos falsificam de tudo, desde carteira de identidade às certidões de nascimento e casamento, por exemplo. Infelizmente, no Brasil não existe um documento de identidade em forma de cédula universal, confeccionada de forma unificada para impedir falsificações. A OAB emite uma identidade com chip o que dificulta, em muito, a falsificação. O real também possui diversos dispositivos de segurança. Já as carteiras de identidade falsificadas são encontradas por aí, em muitos casos impressas com o papel da própria Secretaria de Segurança Pública. É um negócio muito sério, mas ninguém quer responder por isso. Já fizemos diversas reclamações através da Associação dos Notários e Registradores, nos reunimos com representantes do Judiciário e fizemos de tudo para que o governo assuma a responsabilidade que ele realmente tem que é a de proporcionar condições de segurança e proteção para os cidadãos. Nós temos carteiras de identidade expedidas pelo Detran e por outros órgãos que não são de identificação e criminalística e vivemos um verdadeiro festival de carteiras de identidade para dificultar a vida do cidadão. Chegamos ao ponto de criarmos uma pequena central de verificações do cartório para tentar minimizar a elevada incidência de documentos falsificados, mas continuamos à mercê dos bandidos sem que a justiça e o governo tomem providências para nos garantir segurança no trabalho.

Como você vê a chegada dos concursados aos cartórios de Anápolis e do país inteiro?
Acho interessante essa situação. Se eles prestaram concurso e os cartórios estavam vagos, há a necessidade de se preencher essa lacuna. O cartório não pode ficar mais do que seis meses sem um titular, então, essas nomeações vieram em cumprimento da lei e ao chegarem, os novos titulares encontraram cartórios desorganizados e com deficiências e que ainda estavam na máquina de escrever em plena era da informática; enfim, muitos atrasos que existiam até mesmo pela falta de ação do governo. Se o STF fica discutindo sem uma definição clara das regras do jogo, então o próprio sistema tem culpa pela estagnação. Os concursados representam sangue novo nos cartórios e creio que vieram com o firme propósito de rever os erros de antes e modernizar e aplicar a lei no que se refere ao seu fiel cumprimento. Eu mesmo já verifiquei que a vinda desse pessoal foi muito positiva, até mesmo por nos alertarem para determinadas situações. Por outro lado, com sangue novo e as novas exigências, haverá uma diminuição também da roubalheira porque eles fiscalizam o serviço que fazemos e que são enviados para registro. Só vai ser benéfico para a população em geral, não obstante haja atrasos que motivam reclamações, mas com os quais somos obrigados a concordar porque a pessoa que assume tamanha responsabilidade tem que ter cautela e critério em suas decisões e determinações. Eles são novos e vieram para fazer valer a lei acima de tudo e, às vezes, até lembrando os velhos escrivães que não podemos nos bitolar. Temos que evoluir de acordo com a evolução da lei. A lei é que comanda tudo.

Você tem quantos anos de cartório e como se deu seu ingresso na política?
Comecei em 1953 como estafeta e, desde 1960, sou titular do Cartório do 2º Ofício de Notas de Anápolis, o mais antigo na função. Concluí Direito em 1972 pela primeira turma da FADA – Faculdade de Direito de Anápolis, hoje UniEvangélica, que era então dirigida pelo Dr. Olímpio Ferreira Sobrinho. Em 1992 o candidato a prefeito de Anápolis, Wolney Martins, insistiu para que eu me candidatasse a vereador para ajudá-lo. Aceitei a incumbência e fomos eleitos, ficando até 1996 sem conseguirmos a reeleição. A prefeitura era muito pobre e o prefeito construiu empreendimentos de alto custo não conseguindo arcar com seu custeio, inclusive por não poder contar com a prometida e não cumprida ajuda do governo estadual. As questões políticas são muito embaraçosas e o prefeito acreditava no então governador, Maguito Vilela, no que não foi correspondido, não conseguindo sequer quitar as últimas folhas de pagamento dos funcionários o que causou grandes transtornos à sua administração. Wolney Martins é honesto, trabalhador e inteligente, porém, falhou na questão da folha, o que é muito grave, custando-lhe, inclusive, um irreparável arranhão em sua imagem como administrador.

De lá para cá houve mudanças significativas na prática política e na evolução de Anápolis?
Sim. Naquela época existiam muitos políticos de quase nenhuma cultura e hoje o nível é bem melhor, embora sua atuação ainda seja meio atrapalhada. A cidade mudou da água para o vinho, vem crescendo assustadoramente, as indústrias se multiplicaram e a educação evoluiu com a implantação de faculdades e universidades, o que contribuiu para o crescimento cultural de nosso povo. Quem tem cultura, tem tudo. Anápolis está num patamar muito bom também nesse quesito, mas tudo tem um preço. A falta de segurança assusta nossa população, os marginais estão matando por uma pedra de crack e a impunidade campeia. O governo inaugura presídios, o preso custa 78,00 por dia e a situação continua de insegurança. O armazém de presos é caríssimo. O cumprimento integral da pena e a obrigatoriedade do trabalho nos presídios seriam medidas interessantes, mas nada muda. Prende na segunda e solta na terça. A gente sabe que está vivo agora, mas daqui a pouco só Deus sabe. Meu filho teve o carro roubado com o revólver na cabeça na capital de Goiás. Eu já espantei bandido roubando o carro da minha nora. É um negócio muito difícil.

O que poderia melhorar no crescimento vertiginoso experimentado por Anápolis e qual é sua mensagem para o povo anapolino nos 107 anos do município?

Educação, sempre educação. Com educação todos os outros benefícios virão. Só pela educação e também pelo temor a um ente maior, que é Deus, as pessoas passam a entender o que pode ou não ser feito. Que Anápolis, uma cidade do presente e do futuro, continue progredindo, ampliando investimentos em educação e valorizando sempre essa sua condição de centro logístico do Brasil.



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