Uma vida inteira dedicada à defesa da igualdade: Clovis Bueno Monteiro
Matéria publicada em 09/08/2013, às 14:09:27

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Clóvis Bueno Monteiro completará 106 anos daqui a seis meses, já que nasceu no dia 30 de novembro de 1907, em Crato (CE), no mesmo ano da emancipação política de Anápolis. Do Ceará, Clovis, ainda jovem, partiu para o Rio de Janeiro de navio. Era o ano de 1929. Posteriormente, incorporou-se no Primeiro Regimento de Cavalaria Divisionária, chegando a ser promovido a sargento. Em meados de 1933, já desligado do exército, terminou o curso de topografia e agrimensura. Mais tarde, participou do levante popular que pretendia derrubar Getúlio Vargas do poder, movimento que ficou conhecido como Intentona Comunista de 1935. Por conta disso, foi preso e teve contato com o líder comunista Luis Carlos Prestes, convivendo mais de perto com Carlos Mariguela, outra expressiva liderança do PCB da época e com Agildo Barata, entre outros. Em 1937 resolveu ir para São Paulo, onde trabalhou em um escritório de advocacia.

Com as perseguições ainda no Estado Novo (1937-1945), resolveu se interiorizar se mudando para Campinas (SP), depois para o Triângulo Mineiro, chegando em Goiás no início da década de quarenta. Em Corumbaíba, conheceu Abissínia, a companheira de todas as horas. Dessa união vieram três filhos e um neto. Em 1945 migrou para Pires do Rio (GO), onde fundou o PCB. Participou de lutas históricas como a da campanha “O petróleo é nosso”, movimento dos nacionalistas contra os defensores do capital estrangeiro, em 1953, para exploração do petróleo em terras brasileiras. Lutou pela abertura política e contra o regime militar entre as décadas de sessenta e oitenta. Foi um dos fundadores do PT de Anápolis e participou das discussões políticas tanto na cidade, quanto no Brasil até próximo aos 100 anos de idade. “Desde que o conheço ele sempre foi envolvido com política”, diz a esposa que o acompanha há 71 anos quando se encontraram, pela primeira vez, em Corumbaíba (GO), cidade natal de Abissínia. Auxiliado pelos filhos e pela esposa, Clovis Bueno concedeu-nos esta entrevista.


Fale-nos um pouco sobre sua família.
Conheci Abissínia Bueno Monteiro em Corumbaíba (GO) e com ela estou casado até hoje. Aos 91 anos segue como minha fiel companheira com quem tive a felicidade de trazer três filhos ao mundo: Lenine Bueno Monteiro, Beloyanis Bueno Monteiro e Leni Bueno Monteiro.

Você foi vereador em Anápolis?
Sim. Fui vereador em Anápolis e participei ativamente da vida política goiana de forma intensa e apaixonada. Em 1973, fui preso por um ano no CEPAIGO em virtude de nossa luta contra o regime militar, quando Abissínia me visitava uma vez por semana. Vi Anápolis crescer, sempre participando da vida política do município e também do estado. Na minha época vereador não tinha salário. O trabalho era voluntário e o resultado era muito positivo, pois havia participação ativa na vida do município.

Abissínia, o que você se recorda sobre a trajetória de vida de Clovis?
Na realidade César Carlos de Almeida é o nome de nascimento do Clovis, que aos 17 anos transferiu residência do Crato para o Rio de Janeiro, onde permaneceu por vários anos. Lá, casou-se com Guiomar com quem teve as filhas Liozete e Marlene. Perseguido pelas forças do governo foi obrigado a queimar os documentos e fugir para o interior do país, passando por São Paulo e Minas Gerais até chegar em Anápolis onde vive até hoje. Clovis foi um dos fundadores do PT em Anápolis e participou ativamente da luta pela anistia nos anos 80, tanto que ele e meu filho Lenine foram anistiados.

Beloyanis, os filhos seguiram a linha ideológica do pai?
Claro. À risca. Não dá pra ser diferente. Ele sempre foi um exemplo para nós até hoje. Exemplo para todo mundo. Leni estudou na União Soviética no final da década de 70. Lenine participou do movimento estudantil da UNB - Universidade Nacional de Brasília no início da década de 70 e, por isso, foi condenado pelo regime miliar se exilando no Chile, ainda no governo Allende. Posteriormente, devido ao golpe, seguiu para a  Europa. Hoje, atua em Goiânia como urbanista e professor universitário. Quanto a mim, fui militante do PT antes e depois da criação do partido e hoje sou ativista ambiental em São Paulo atuando, há 32 anos, como Coordenador de Mobilização da Fundação SOS Mata Atlântica e participo de um grupo que faz caminhadas pelo Brasil na defesa do Código Florestal. Esta minha trajetória  vem do DNA do meu pai. Leni, depois de permanecer por seis anos na União Soviética e dois anos no Peru, retornou ao Brasil. Atuou no poder público nas esferas, estadual, municipal e federal na região nordeste, São Paulo e Brasília. Hoje, presta consultoria em Educação Ambiental na região de Goiás.

Beloyanis, seu pai continua ativo?
Não. Está consciente, mas ouve pouco, conversa pouco, mas não tem a mesma memória que tem minha mãe e que agora é sua porta-voz. Reconhece toda a família e amigos e fica antenado em todos os movimentos da casa. Além do que,  orgulha-se muito por todos os filhos terem seguido sua linha ideológica.  Há, inclusive, um fato curioso ocorrido recentemente. Nas últimas eleições, passado o primeiro turno, ao assistir televisão ele perguntou por que não o tínhamos levado para votar. “Eu sou um cidadão brasileiro, nunca deixei de votar e não posso admitir isso”, disse. No segundo turno, o levamos até sua seção eleitoral e perguntamos: “Em quem o senhor vai votar?” E ele: “Dilma”. “Qual é o número dela?” E ele: “13”.

Clovis foi eleito vereador, Abissínia?
Não. Ele era primeiro suplente e só não foi eleito porque faltaram 10 votos. Algum tempo depois da eleição, ele assumiu a titularidade numa época em que vereador em Anápolis não era remunerado.

Como vocês analisam a Anápolis de hoje?
Melhorou. Avançou muito. Porém, há ainda muito por se fazer. A atual administração vai bem, principalmente na área ambiental, mas faltam coisas fundamentais como universalização da coleta seletiva, humanização e racionalização da mobilidade urbana, mais saúde, educação e segurança e outras providências fundamentais para uma melhor qualidade de vida da população. Em 2009, Clóvis recebeu huma homenagem da Prefeitura Municipal, o Mérito de Cidadania, o que nos sensibilizou e pelo que agradecemos ao prefeito Antônio Gomide que, durante a homenagem, citou a importância do luta de Clovis dizendo que ele sempre cumpriu o papel de cidadão.

Abissínia, você e o Clovis viveram momentos importantes da luta pela democracia. Algum episódio marcante desses momentos?
Na época da mobilização pela Constituinte, na década de 40 em Pires do Rio, a gente  morava na esquina onde funcionava o comitê do PCB. Ali, nosso grupo se reunia com frequência para defender a Constituinte e era eu quem cuidava do café que era feito numa lata de querosene. Na parede de fora tinha a estampa de duas mãos dadas, símbolo da luta pela Constituinte, que numa bela manhã não mais estava lá. A polícia a tinha levado, mas na surdina, porque o movimento era legal. Já em Anápolis, tínhamos um instrumento muito importante que era o jornal “A Luta” que, curiosamente, tinha a foto do José Borges, que era o entregador do jornal, na capa. A sede era na casa que morávamos, na rua 10 de março, onde depois passou a funcionar a Frente Popular que organizava movimentos contra a carestia, na época do prefeito Carlos de Pina. Em uma certa ocasião pedimos a ele para baixar o preço da carne e ele respondeu: “Baixar não vai dar, mas garanto que não vai subir”. O diretor da Frente Popular era Aloísio Crispim e um belo dia chegaram uns 20 policiais. Clovis perguntou ao Lenine, então com seis anos de idade, para ver quem estava chegando e ele voltou e disse: “É a polícia”. Clovis os recebeu e eles perguntaram quem era o diretor da Frenete Popular. Horas depois, prenderam Aloísio Crispim a mando do delegado Zaqueu Crispim, irmão dele.

O que vocês acham das manifestações que tomaram conta do país nos últimos dias?
Fora o vandalismo, achamos que esse é o caminho. Se tivéssemos o partido comunista mais organizado e atuante tudo isso teria acontecido bem antes. Abissínia participava da ala feminina do partido cuja bandeira maior era a justiça social, a igualdade e a união de todos em benefício do coletivo. Toda nossa família pratica isso no dia a dia há muitos anos.

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