"Desde que abracei a luta em defesa da floresta, tenho recebido ameaças de morte": Almir Suruí
Matéria publicada em 13/05/2013, às 12:21:33

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Com o auditório da UNIR lotado e na presença de vários indígenas do povo Suruí, além de autoridades, o líder indígena Almir Narayamoga Suruí, de 38 anos, recebeu o título de “Doutor Honoris Causa” das mãos da reitora da Fundação Universidade Federal de Rondônia, professora doutora Maria Berenice Alho da Costa Tourinho. Além da outorga de título, Almir Suruí foi saudado com a leitura de seu histórico de vida e de defesa dos direitos humanos do povo Suruí e demais povos indígenas. Eleito pela revista americana “Fast Company” como um dos líderes mais criativos do mundo dos negócios, o índio Almir Suruí receita a tecnologia para preservar as tradições. Soa contraditório, mas a mesma modernidade que quase dizimou os Suruís nos tempos do primeiro contato promete salvar a cultura e preservar o território desse povo. Em 2007, o líder Almir Suruí, de 37 anos, fechou uma parceria inédita com o Google e levou a tecnologia às tribos. Os índios passaram a valorizar a história dos anciãos e a resguardar, em vídeos e fotos on-line, as tradições da aldeia. Ainda se valeram de smartphones e GPS para delimitar suas terras e identificar os desmatamentos ilegais.

Como um grande guerreiro, Almir tem ideias modernas e postura de liderança nata, qualidades que o credenciam como mediador na luta pelos direitos dos primeiros habitantes da Amazônia e deixa claro a necessidade do envolvimento dos não-índios. “A contribuição de todos é bem vinda, não somente para a melhoria de vida dos povos indígenas, como para a humanidade”, agradeceu Almir Suruí que concedeu esta entrevista na Suiça.

Quantas vezes você já foi ameaçado de morte?
Desde que eu comecei a defender a floresta, tenho recebido ameaças de morte. Pela minha cabeça são oferecidos US$ 100.000, mas graças à Secretaria de Direitos Humanos, que tem pressionado o governo, eu estou hoje sob proteção.

Quem paga por isso?
O governo brasileiro. Uma unidade especial da polícia federal faz a minha proteção. Mas, por si só, o governo brasileiro não estaria disposto a me proteger. Isso só é feito pela pressão internacional de organizações de direitos humanos. Nos últimos meses, a situação tornou-se pior. Vários chefes de Suruí estão ameaçados, inclusive por madeireiros, assim como muitos membros de minha família.

O Departamento para Assuntos Indígenas do Brasil compromete-se com sua proteção?
Esta autoridade é contestada. Por dois meses, conversamos com o governo para abolir esta autoridade. Eu acredito até que ela é exercida por aqueles que fazem pressão por trás dessas ameaças de morte. Mas não é apenas sobre os Suruí, é também sobre outros povos indígenas que estão tentando proteger a floresta tropical. Todas as tribos são ameaçadas e estão em perigo, assim como todos os ambientalistas, mesmo que eles não sejam nativos.

A situação dos demais povos indígenas no Brasil é a mesma dos Suruí?
A situação dos povos indígenas no Brasil é terrível. Diz-se que os nativos iriam tentar dividir o país. Essa acusação é falsa. Nós só queremos que o Brasil respeite a Constituição e que sejamos respeitados. Queremos que os direitos dos povos indígenas sejam reconhecidos. Há de fato uma declaração dos direitos dos povos indígenas que foi adotada pela ONU há mais de dois anos.

Como muitos de seus chefes Suruí foram mortos nos últimos anos?
Desde que começamos a luta pela floresta, há dez anos, três chefes Suruí foram mortos. Em toda a região mais de 12 chefes foram mortos.

Obviamente nem todos os chefes Suruí estão do seu lado e alguns cooperam com os madeireiros. Isso é verdade?

Direito. Mesmo dentro do povo Surui há discórdia. Eu sou o chefe do povo, mas apenas chefe de Estado ou de governo. Eu trabalho com a maioria com o compromisso de lutar pelos direitos de todos, independentemente se um ou outro não concorda. Nós, como chefes, devemos defender o povo cem por cento. Infelizmente, as pessoas não concordam 100 por cento em termos de nossa luta. Devemos respeitar, devemos ter paciência e mostrar liderança. Temos que trabalhar para buscar estratégias e soluções, porque há pessoas que são pagas pelas empresas madeireiras, para lutar por seus interesses e até mesmo o dinheiro do governo é usado para isso.

Você está tentando proteger cerca de 2.400 quilômetros quadrados de floresta tropical?
Nosso país era muito maior. Ninguém sabe exatamente o quão grande ele era originalmente. Eu só sei que, do nosso país a cada ano, cinco por cento da floresta são cortados. Isso é muito.

Você tenta controlar o desmatamento com o uso do Google Earth?
Assim é. Usamos as ferramentas do Google também para nos comunicarmos. Queremos mostrar a importância da floresta tropical. E queremos mostrar que o povo Suruí tem um plano para a exploração sustentável da floresta tropical.

Qual é esse plano?
É um plano de 50 anos. Meio ambiente, saúde, programa educacional, econômico e cultural. Um programa com 12 sub-rotinas. Você tem que abranger todas as áreas, todos os lugares, com soluções estratégias e soluções para a produção sustentável.

Do que os Suruí vivem?
Nós produzimos café e exercemos alguns ofícios. Muitos trabalham em agências governamentais. Plantamos nosso próprio arroz e vendemos produtos florestais. Também estamos trabalhando em um plano de negócios para que nossos produtos obtenham um preço justo no mercado.

Vocês sobrevivem também da madeira?
Sim, mas é uma degradação controlada, com reposição. Nós já plantamos mais de 100 mil árvores. Isso é sustentável. Um exemplo: Se eu tiver 100 hectares e utilizo apens 10, então esses 10 hectares me dá três ou quatro anos de uso agrícola e depois disso vou cortar em outro lugar e reflorestar estes 10 hectares.
As tradições de seu povo podem permanecer intactas no mundo moderno?
Certamente. Nossas tradições podem ser preservadas. Por esta razão, temos um plano para valorização da nossa cultura. Vivemos nossos rituais assim como eles sempre foram, mas nossa cultura está ligada ao meio ambiente e dependemos da existência da floresta tropical. Sem ela, nossa cultura não continuará a existir e sem  essa cultura a floresta não persistirá. Ambas precisam de um equilíbrio para perdurarem.

“Quem segue o caminho mais fácil, à procura de uma solução rápida,  acaba prejudicando milhares de pessoas”

Há escolas em sua comunidade?
Sim, pelo plano de 50 anos o ensino nas escolas dos Suruí é obrigatório.

Há fotos de Suruís jove com computadores na floresta tropical. O sinal de internet abrange toda a reserva?
Não, só em alguns lugares. Nossos jovens estão em nosso escritório em Lapethana, onde há Internet. Alguns Suruí estão conectados com seus smartphones via satélite na internet.

Há Surui jovem deixando a floresta sem a intenção de voltar?
Não. Até o momento, conseguimos integrar os Suruí neste plano de 50 anos. Isto é, os meninos vão e vêm, eles vêm e vão. Não sabemos quanto tempo nós podemos fazer isso. Mas temos chefes tentando se certificar de que eles estão cientes de suas responsabilidades, porque se você é um intelectual, mas não contribui para a herança e a preservação da cultura de seu povo, então não vale a pena.

Há, certamente, casamentos mistos. Isso é um problema para vocês?
Sim. Em todas estas questões que temos aqui levantadas, devemos considerar como podemos garantir a nossa sobrevivência. Há também outros problemas que foram criados pelo governo brasileiro: eles falaram sobre a integração dos povos indígenas na sociedade brasileira. Esta campanha do governo nos anos 60, 70 e 80 foi uma agressão contra os povos indígenas. Hoje, temos sabemos que o governo estava determinado a tomar medidas contra os nativos. Isto para nós criou uma situação difícil. Mesmo com as melhores estratégias, teremos dificuldades.

Sabemos que nos EUA e nos países latino-americanos há problemas com índios que usam álcool. E entre os Suruí?
O alcoolismo é um problema comum. Eu acredito que temos de encontrar um equilíbrio. Falamos muito sobre isso na formação. O alcoolismo é uma doença, um vício, mas deve-se considerar também o papel da indústria, da produção e o incentivo ao consumo de álcool. É proibido consumir álcool na área tribal Surui.

Quais é atual população Surui?
Antes de entrar em contato com os brancos era em torno de 5000 Suruí. Depois do contato, em 1969, os Suruí foram dizimados e reduzidos a 250 pessoas. Hoje, 40 anos depois, somos cerca de 1300 índios.

O problema das doenças trazidas pelos brancos já foi resolvido?
Tuberculose e gripe ainda são um grande problema. Morrer por essas doenças é uma constante entre nossos idosos.

Não há ajuda médica?
No papel, temos a assistência médica do governo, mas nada é feito. A situação dos povos indígenas no Brasil, não só dos Suruí, é caótica. Nossas autoridades não são eficientes. Na teoria, tudo parece muito bom, mas a implementação está faltando. Alguém teria que assumir a responsabilidade por aquilo que você quer fazer para os nativos, para realmente implementar.

Provavelmente brancos, na sua maioria pobres, que trabalham na destruição da floresta tropical. O que você tem a dizer para essas pessoas?
É preciso trabalhar, mas também pensar no futuro. Há no mundo milhares de pessoas que querem tomar o caminho mais fácil, o caminho do menor esforço. Quem segue este caminho, à procura de uma solução rápida,  acaba prejudicando milhares de pessoas.

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