As entidades classista, empresas e o próprio cidadão comum podem contribuir para a construção de um mundo melhor: Adair Rodrigues
Matéria publicada em 12/03/2013, às 13:53:26

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Adair Rodrigues dos Santos, nascido em Trombas (GO), mas com registro civil em Abadiânia (GO) onde passou boa parte da infância com avós e tios, não teve a oportunidade de conviver com os pais nem com os dois irmãos, mortos durante embates com a polícia por ocasião da revolta camponesa de Trombas e Formoso, liderada por José Porfírio de Sousa. Do pai, Benedito Gomes Pereira, restou apenas a lembrança de uma foto que lhe foi entregue por uma tia. Da mãe, Benedita Rodrigues dos Santos ele jamais viu o semblante. Hoje, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Anápolis, Adair Rodrigues, mais conhecido como o Arrojado, revela que ainda muito pequeno, depois de batizado na Igreja Santana, às pressas, porque estava correndo risco de vida, foi internado no Hospital Evangélico Goiano, em Anápolis (GO), onde fora deixado pelo pai, ferido, mas que não o abandonou. Benedito Pereira seguiu para Abadiânia (GO), onde faleceu. Recuperado, Adair foi criado pela avó paterna, Antônia Gomes Pereira e pelo avô, Pedro Gomes de Sales, em Abadiânia. Porém, nenhuma dessas dificuldades o impediram de se tornar um dos líderes sindicais de maior projeção do Estado de Goiás, pelo trabalho invejável em prol da categoria à qual pertence como profissional e em virtude da execução de projetos sociais que se tornaram modelo para outras instituições. Adair Rodrigues dos Santos, o Arrojado, é o nosso entrevistado.  

Como você tomou conhecimento da tragédia que se abateu sobre sua família?
Antes de falecer, minha avó, a quem eu chamava de mãe, me contou a história da minha vida dizendo-me que ali, na fazenda Varginha, de propriedade de minha família, onde hoje é localizada Fazenda Jerivá, no município de Abadiânia, estava sepultado meu pai. Numa noite anterior, logo após a reza do terço e no momento em que a estrela Dalva surgiu, ela me beliscou para me acordar e contar que não era ela a minha mãe. Foi naquele momento que fiquei sabendo o que tinha acontecido com minha família. No dia seguinte, ela chamou meus tios e, depois de dizer que partiria em breve, perguntou quem se encarregaria de cuidar de mim. Lembro bem que caminhávamos pela fazenda do meu avô, eu puxando um casco de tatu cheio de areia e que era o carrinho de brinquedo na época, quando um dos meus tios, o José Gomes Pereira, conhecido por ‘Lico’, decidiu ficar com a responsabilidade de me educar. E ele cumpriu tão bem a missão que até hoje sou conhecido na região por ‘Adair do Lico’. Dias depois minha avó partiu e, aos 13 anos, passei a viver por conta própria, trabalhando na lavoura, em olaria, montaria, candieiro de carro de boi e outros.

Embora tenha perdido seus pais e irmãos muito cedo você conseguiu constituir uma família enorme. Como foi isso, Adair?

Casei-me muito cedo, sem muita bagagem e sem experiência e a relação não deu muito certo. e criei cinco filhos, praticamente sozinho. Hoje, quando o motorista me diz que fica até mais de um mês longe da família, isso me toca o coração e fico muito sentido. Depois tive outros relacionamentos, com mais filhos, até que conheci Cláudia Cristina Cardoso dos Santos, no dia a dia do sindicalismo. Ela era funcionária de uma empresa e eu, como sindicalista, a encontrava sempre nos embates em favor da categoria. Até que um dia eu lhe disse: “Você está é apaixonada por mim!”. E não é que estava mesmo? Estamos casados desde 16 de fevereiro de 2010 e curtindo muito o caçulinha da família, Andreiv Henrique Cardoso dos Santos, que completou dois aninhos no dia 20 de janeiro de 2013, Dia de São Sebastião. Isso mudou totalmente minha vida e hoje agradeço a Deus e me orgulho muito dessa grande família que acabei constituindo com muito amor, trabalho e harmonia.

Seu envolvimento com o sindicalismo aconteceu naturalmente ou existe uma vocação para a luta sindical?

Ainda pequeno, me perguntaram o que eu queria ser quando crescesse e, sem saber porquê, disse que queria ser motorista, o que acabou acontecendo pela bênção de Deus. Mas antes, passei por várias etapas. Tive uma passagem rápida por Anápolis trabalhando como chapa no Arroz Brejeiro, mas sempre pensando em ser motorista o que consegui ingressando na Viação Araguarina, em Goiânia, onde comecei a participar de todos os movimentos em defesa dos interesses da categoria. Lembro-me como hoje que um dia eu fui a uma assembleia e lá resolvi falar pela primeira vez em um microfone. Quando encostei a boca nele, levei um choque e fui repreendido pelo presidente. Por impulso, bati o microfone na testa dele e o fato repercutiu em todo o estado de Goiás. Foi assim que passei a ser conhecido por cem por cento da categoria o que, de certa forma, marcou o início da minha trajetória como sindicalista. Na verdade, eu tinha que falar, tinha que contestar, porque eu não concordava com o que estava acontecendo e houve todo esse desdobramento.

Fale sobre sua vinda para Anápolis.

Na carreira sindical tive várias experiências. Fui Diretor Social do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Estado de Goiás, cuja sede localiza-se no Setor Bueno onde até hoje existem várias árvores que eu mesmo plantei em dezembro de 1985. Vim para Anápolis em 04 de janeiro de 1986, como Delegado Sindical, onde fizemos compromisso com nossos companheiros daqui de que se a Chapa 2 vencesse as eleições colocaríamos um diretor aqui. Além disso, nosso trabalho era para que os companheiros daqui ganhassem igual aos companheiros de Goiânia. A cidade não tinha terminal de ônibus e os embarques e desembarques aconteciam na Praça Americano do Brasil em frente a mais de uma dezena de bares e lanchonetes. Fomos eleitos e viemos para cá. O Sindicato não tinha sede, não tinha sala, não tinha carro. A gente andava de ônibus. Algum tempo depois, instalamos uma sala na Avenida Goiás, esquina com a Rua Manoel D’Abadia, no prédio onde também funcionava a Delegacia do Sindicato dos Radialistas e começamos a trabalhar com o propósito de conquistar uma sede própria e que a categoria ganhasse igual aos companheiros de Goiânia. Trabalhei como delegado até 1989. O primeiro acordo coletivo dos profissionais do volante de Anápolis foi feito pela minha mão. Na época, os motoristas e cobradores trabalhavam com camisa de manga comprida e gravata e fizemos o compromisso de eliminar essa obrigatoriedade, o que conseguimos, graças a Deus.

“Hoje a diferença dos vencimentos com os profissionais de Goiânia é de apenas 80,00 e os cobradores estão no sistema”

Mas havia também as dificuldades, ou foi fácil crescer no sindicalismo e fundar o SITTRA?

Enfrentei muitas dificuldades, algumas de muita gravidade como a perda do meu filho Jair, morto aos 16 anos de idade, no período em que apresentávamos dois programas de rádio e trabalhávamos com um carro de propaganda volante, o que por muito tempo me deixou sem ação. Até hoje tenho esse carro e aquela foi uma tragédia que até hoje me abala e vou carregar essa dor pelo resto de minha vida. Com a graça de Deus, consegui recomeçar, com arrojo e fé e fomos reconstruindo nossa família e nossa carreira como sindicalista. Comecei a me envolver com o sindicalismo em 1979, mas assumi o Sindicato no dia 27 de outubro de 1985, como Diretor Social e Delegado Sindical, percorrendo o estado inteiro, até Araguaína. Jamais deixei de ser arrojado e, depois de muito trabalho, fundei o Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Anápolis, em 09 de abril de 1989, com a determinação e sabedoria que Deus sempre me deu. Naquela época, já tinha conseguido equiparar os salários dos profissionais de Anápolis com os de Goiânia, só que tínhamos um problema: com a chegada da catraca eletrônica, tive que me empenhar muito para manter os cobradores no sistema onde eles estão até hoje. Foi um grande trabalho de mobilização da categoria e hoje a diferença dos vencimentos com os profissionais de Goiânia é de apenas 80,00 e os cobradores estão no sistema. Ninguém foi dispensado e Goiânia não tem cobrador. Anápolis tem ruas estreitas, o motorista tem que se preocupar com a condução do ônibus, com a catraca, com o trânsito que é muito tumultuado e tudo isso demonstra a importância e o valor do cobrador. Criamos o Sindicato e fizemos um ajuste de conduta com o saudoso Miguel Moreira Braga, então diretor da empresa Transporte Coletivo de Anápolis, por cinco anos, que venceu em 2009. Graças a Deus, a atual diretoria da TCA entendeu a importância do trabalho do cobrador e esse ajuste continua valendo. Continuamos lutando pela permanência deles e recentemente discutimos em Goiânia, durante assembleia, interesses da categoria e nossa atuação em Anápolis tem sido espelho para esses debates em nível estadual.

Qual é seu pensamento em relação à possibilidade de mais de uma empresa explorar o transporte coletivo em Anápolis?

Como representante da categoria, espero que todas as partes envolvidas fiquem bem: a categoria, o Sindicato, a população e a empresa que for explorar esse transporte, hoje um dos melhores do país.

O SITTRA realiza obra de ampliação de sua sede. O objetivo é aumentar as ações de assistência à categoria e também a outras pessoas da sociedade? Esse trabalho tem obtido o sucesso esperado?
Iniciamos a construção de nossa sede própria em 2001, por etapas. No momento, estamos ampliando essas instalações para ampliar e melhorar o atendimento a todos os nossos associados. Penso que o investimento na qualificação dos profissionais nunca é suficiente e espero que as empresas também ajam assim para valorizar ainda mais a categoria que hoje chega à casa dos três mil associados ao SITTRA. Por outro lado, penso muito nos filhos dos nossos associados e no futuro deles. Além disso, pela criação que tive, sem pai, sem mãe e sem orientação adequada e também pelo mundo difícil que vivemos hoje, me preocupo muito com a educação, a cultura, o esporte e o meio ambiente.

Se preocuparmos e agirmos nesses setores, no mínimo estaremos contribuindo para a formação de grandes cidadãos do amanhã. Culpa-se muito o poder público, mas esquece-se que as entidades classistas, empresas e o próprio cidadão comum podem e devem também contribuir para a construção de uma sociedade e um mundo melhor. Temos aqui uma semente plantada com o trabalho do SITTRA seus reflexos podem ser vistos no sucesso de profissionais de bem, competentes e autênticos como os comunicadores Ferreira Junior, Ronair Mendes e Jony Morais, hoje altamente respeitados e que começaram aqui. Gosto de uma montaria e sempre que posso, estou cavalgando. Foi aí que conheci o Jony Morais em Nerópolis que me pediu para tocar berrante num show dos Arrojados. Ele era bem franzino e fiquei sensibilizado com a simplicidade e sinceridade daquele pedido. Ele tocou o berrante, comentou sobre sua vida com a gente e um dia nos ligou de Minas Gerais quando o chamei para vir para perto de nós. Hoje, o Jony atua no país todo como locutor comercial de rodeios e fico empolgado e realizado toda vez que o escuto em seu trabalho. Ronair Mendes, que até hoje reside na região do Jardim Alexandrina, também começou com simplicidade com a gente e hoje é um respeitado profissional do rádio. O Ferreira Junior, profissional do rádio goiano muito bem sucedido é outro que até hoje não se esquece desse nosso relacionamento e do começo de sua carreira, o que para mim é motivo de orgulho e gratificação. São tantas pessoas, que chego a dizer que nem sei quantos filhos tenho. Isso me realiza e agradeço muito a Deus por sempre poder fazer o bem.

“Nos identificamos muito com a forma de atuação da Nova Central Sindical e sabemos que sempre que precisarmos ela vestirá a camisa do trabalhador”


O que o atraiu para a luta de fundação da Nova Central Sindical?
A forma de atuação da Nova Central Sindical identificou muito com a minha maneira de trabalhar. No final da década de 80 e início da de 90 me identificava muito com a luta da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em favor do trabalhador, mas ocorreram alguns fatos que me aborreceram e comecei a me distanciar. Desde a fundação da Nova Central Sindical, muito centrada na política sindical e na defesa dos trabalhadores, sem cor partidária e muito eclética, passei a simpatizar e a me identificar com esse estilo de atuação e acabei sendo um de seus fundadores em nível nacional. Participei da fundação da Nova Central Sindical, em nível nacional, ao lado dos companheiros Jaime Bueno Aguiar, que hoje é o presidente da Fettransporte, José Calixto Ramos e do Dr. Omar José Gomes, presidente da Confederação Nacional. Hoje, integro a direção estadual da entidade, ao lado do companheiro Mauro Zica Junior, que não mede esforços na luta em defesa dos interesses dos trabalhadores.

Até hoje, nada tenho a reclamar e me sinto muito à vontade para atuar em sintonia com a Nova Central. Recentemente em Goiânia ocorreu um movimento do Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários do Estado de Goiás e a Nova Central nos apoiou totalmente. Tenho a certeza de que sempre que precisarmos dela, a Central vestirá a camisa do trabalhador em transportes rodoviários, sem interesse político partidário, o que é muito importante, não só para o Sindicato, mas também para o trabalhador que passa a não ser prejudicado por conflitos de interesses porque os interesses dele é que são a nossa meta maior. Unidos, a gente consegue tudo o que a gente quer, ou seja, unidos, jamais seremos vencidos.

Você se sente realizado como pessoa e como líder sindical?
Recentemente tive a grande honra de ser convidado a ingressar no Rotary Clube onde hoje tenho minha segunda família, ao lado de companheiros como Mário Alves, meu padrinho. Como já vinha fazendo um trabalho social há algum tempo, tive então a oportunidade de ampliar essa minha visão sobre o trabalho em favor do próximo, o que me deixa muito feliz. Tenho também o privilégio de fazer parte do corpo de agentes do Juizado da Infância e Juventude, instituição que atua em defesa da criança e do adolescente e que tem desenvolvido um belíssimo trabalho, capitaneado pelo juiz, Dr. Carlos José Limongi Sterse, digno e merecedor de todos os nossos elogios. Sou pai de nove filhos, seis homens e duas mulheres, a maioria casados e um falecido. Tenho seis netos e amo todos eles como amo minha companheira Cláudia Cristina. Sou católico, respeito todas as religiões e por tudo o que já passei, me sinto uma pessoa realizada sim, graças a Deus.

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