O meio ambiente só decolará quando for tratado como negócio e não como uma questão apenas ecologicamente correta: Guilherme Arantes
Matéria publicada em 30/03/2012, às 13:26:02

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Guilherme Arantes

Guilherme Arantes (São Paulo, 28 de julho de 1953), um dos ícones da Música Popular Brasileira, começou a carreira como tecladista e vocalista da banda Moto Perpétuo, grupo de rock progressivo dos anos 70. Em 1976, “um anjo mau, desses que vive nas telas de TV, disse: vai, Guilherme, ser sucesso na vida! E ele foi.” Mas, já em 1977, Guilherme Arantes, paulistano da Bela Vista – o famoso bairro do Bixiga - declarava à Folha de S. Paulo, bravo: “Eu não abandonei a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo no quarto ano para ser herói de gravadora”. Referia-se a uma pendenga com a Som Livre.

Até hoje Arantes é polêmico no que se refere a suas declarações, no que concerne ao mercado fonográfico. Na mesma entrevista, ele explicava: “Minha geração de músicos saiu aos trancos. O tempo dos festivais tinha passado e o dos grandes movimentos musicais também. Além disso, o momento estava mais para parar que para começar.” A verdade é que, com o fim do Moto Perpétuo, que durou de 1974 a 1975, ele mesmo confessaria: “O Moto Perpétuo durou quase um ano e quando paramos eu fiquei um pouco perdido”.
Foi nessa altura da vida, que uma de suas composições estourou e foi utilizada na trilha sonora da telenovela Anjo Mau (de Cassiano Gabus Mendes, exibida na Rede Globo em 1976). E quem não se recorda da famosa frase musical quando eu fui ferido, vi tudo mudar, que a rigor, segundo Arantes declarou a Leda Nagle, no Sem Censura da TVE Rio, seria originalmente me atirei no mundo e vi tudo mudar.

A canção teria sido mudada às pressas, a pedido do produtor musical da telenovela, para adequar-se ao personagem vivido pelo ator José Wilker, reinterpretado mais tarde, em 1997, pelo colega de Polissonante – o primeiro grupo amador de Arantes – o ator Kadu Moliterno. Meu mundo e nada mais, a tal canção, se tornaria um ícone no imaginário popular brasileiro, identificada já nos primeiros acordes pela famosa abertura de solo de piano.
Daí para a frente foram 25 temas para telenovelas da Rede Globo, várias canções incluídas em especiais infantis, entre elas o Lindo balão azul, que o tornaria famoso nacionalmente, muitas gravações por parte de grandes nomes da MPB, incluindo o rei Roberto Carlos, Elis Regina, Sá e Guarabira, MPB4, Caetano Veloso, Emílio Santiago, Maria Bethânia, Leila Pinheiro, Joanna, Fafá de Belém, Quarteto em Cy, entre tantos outros, além do bônus de Deixa chover tocada em Joana, a Virgem, telenovela de produção venezuelana.

São mais de 35 anos de carreira solo e o reconhecimento imediato de pelo menos vinte canções que ele canta e toca na televisão ou nos cerca de 140 espetáculos ao ano que promove Brasil afora. É fato corriqueiro ouvir o público cantando euforicamente seus 20 maiores sucessos com ele, em shows, embora jure sempre nos bastidores que ainda vai gravar um disco chamado Os Vinte Maiores Fracassos de Guilherme Arantes, com muitas de suas canções mais bonitas e que, por uma razão ou outra, não foram muito executadas. Guilherme Arantes nunca negou sua eclética multiformação musical, a formação de quem começou tocando chorinho aos quatro anos de idade, num cavaquinho presenteado pelo pai, o doutor Gelson Arantes, médico e amigo do doutor Paulo Vanzolini e de quem transitou do rock ao pop, do pop à MPB, da MPB à New Age e da New Age de volta à MPB com uma familiaridade de dar inveja a qualquer músico de primeiríssima linha do cenário mundial.

Em 2007, Guilherme Arantes abre o Live Earth Rio, cantando Planeta Água. No mesmo ano, um novo CD de inéditas é editado: nasce Lótus. Mais que seu 25º disco de carreira (incluindo o CD do DVD Intimidade), é uma flor que nasce do tempo. Do tempo de estrada consolidada por um músico multifacetado e quase atípico.
Esse Guilherme Arantes múltiplo e quase sempre cheio de novas ideias, como aquele jovem que compôs Amanhã, em um ônibus da antiga CMTC, na subida da Rua Augusta, rumo ao centro da cidade de São Paulo, ainda nos tempos da Faculdade de Arquitetura da USP, em um caderno de anotações.
O que se observa, no momento, é um Guilherme super tranquilo, morando na Bahia desde 2000 e recém redescoberto pelos jovens cantores brasileiros (Mart’nália, Paulo Ricardo, Max Viana, Pedro Mariano, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto, Vanessa da Mata...), o que marca esta trajetória musical vitoriosa.

Guilherme vive com a família na grande Salvador, mas sempre busca novas sementes para o replantio em sua ONG - em Barra do Jacuípe - sua faceta mais visível de biólogo/ecologista amador o que, de vez em quando, lhe rende uma queda de árvore, fato que com frequência relata nas palestras que ministra sobre a temática do meio ambiente Brasil afora. Há, ainda, um outro Guilherme que vive em busca de soluções arquitetônicas para a construção de sua pousada-estúdio Coaxo do Sapo. Ele voltou também às pranchetas e aos “autocads da vida” - para a enorme alegria de sua mãe - Dona Hebe - que ainda sonha com sua volta para as aulas na FAU - USP.
Isso tudo sem deixar de lado, claro, as inevitavelmente presentes inspirações musicais que ele, de quebra, quase sempre registra no seu bom e velho caderninho de anotações. Guilherme produziu em 2010 o CD do cantor e compositor Sérgio Passos, para o selo Coaxo do Sapo, lançado recentemente. Lótus e Intimidade (Som Livre) são seus mais recentes CD e DVD. Guilherme Arantes nos concedeu esta entrevista.

Fale-nos sobre como se deu sua identificação com a música e a poesia e como foi o início de sua carreira profissional?
Foi através de meu pai, Dr. Gelson Arantes, médico-cirurgião. Ele era um a mante da música e tocava violão muito bem; como se diz popularmente, tocava de ouvido. Vivia escutando discos, era um audiófilo, um colecionador de LPs. Depois de estudar piano por alguns anos fui tomando gosto pela música e, na década de 60, já tocava órgão eletrônico em conjuntos de animação de bailes. Foi então que, através de um primo de meu pai, o Solano Ribeiro, produtor musical e diretor dos festivais da Record e do Festival Internacional da Canção, da TV Globo, vim a conhecer o maestro Rogério Duprat e vários músicos profissionais. Conheci os compositores Walter Franco e Jorge Mautner, fazendo amizade de imediato com eles. Com Mautner, subi pela primeira vez em palcos. Em seguida, com Cláudio Lucci, Diógenes Burani, Gérson Tatini e Egydio Conde, formamos o grupo Moto Perpétuo. Gravamos, então, nosso primeiro disco, pela Continental, empresariados por Moracy do Val, lançador do grupo Secos e Molhados. Com produção do Pena Smith, nosso disco foi um marco na história do som progressivo brasileiro. Em 1976, comecei minha carreira solo, pela Som Livre, compondo temas de novelas, entre elas, Anjo Mau e Dancin’ Days.

O meio ambiente está presente em sua produção musical e surge fortemente na composição da música Planeta Água. Já existia essa identificação com a natureza antes, ou ela surgiu ao longo de sua carreira?
À época, tentei fazer uma ode à água, ao ciclo da água, apenas. Não tinha viés ambiental. Era uma guarânia paraguaia/sertaneja, ambientada em Foz do Iguaçu, um dos lugares marcantes da minha infância. A coisa ambiental foi consequência do sucesso do tema, veio depois.

Que dificuldades você enfrentou para alcançar o sucesso que até hoje o consagra como um dos maiores compositores da música popular brasileira?
Sempre é muito difícil começar em qualquer profissão. No caso da música, do teatro e da televisão, que lidam com a projeção pessoal e com a fama,  é ainda mais complicado porque todo mundo quer um lugar ao sol e há preconceito quando a gente ainda “não é ninguém”. As pessoas só vêem defeitos e as dificuldades são grandes. Também tive que afrontar a manipulação das gravadoras, mas logo fui respeitado porque logo veio o sucesso que abre todas as portas e continua abrindo enquanto ele se mantém. Depois, o desafio se torna ainda maior quando se precisa fazer durar o sucesso,
“Sempre se ganhou muito mais dinheiro, e mais rápido, com lixo musical, com composições muito abaixo da crítica. O problema é que as exceções foram ficando mais raras de aparecer para o povão e entre os inúmeros fatores que levam a isso está a manipulação da grana, do jabá, do marketing pago, o que complicou ainda mais. As rádios têm faturamento baixo, deficitário e são muito numerosas, porque foram distribuídas politicamente entre parlamentares
e seus amigos”
quando é preciso repetir os “milagres”, mas isso até Jesus Cristo enfrentou e enfretou com galhardia, de cabeça erguida.

Esse sucesso ficou restrito ao território nacional ou expandiu além fronteiras?
Sim, restingiu-se ao território nacional. Só Coisas do Brasil e Planeta Água tiveram alguma repercussão internacional. Não fui um artista “trabalhado” no exterior.

No que tange à disputa por um espaço no mercado da música, que diferenças você assinalaria entre os dias de hoje e a época em que você começou?
Antes, a maioria dos artistas vinha das camadas mais pobres. A burguesia não achava boa a carreira artística. Então tinha pouca concorrência da classe média/alta e a disputa praticamente restringia-se entre aqueles que eram oriundos das camadas sociais mais baixas que se apresentavam em programas de auditório bem populares. Com o passar do tempo e o sucesso de artistas de classe média/alta, mais e mais jovens passaram a abraçar a carreira musical. Hoje, tudo é muito mais fácil, mas como tem muito mais gente tentando o sucesso, essa facilidade acaba descompensada, pois num cenário de grande concorrência é muito mais difícil se destacar.

Que análise você faz da produção musical atual? O que fazer para melhorar o nível do que vem sendo produzido (ou rodado)?
Hoje, há uma multiplicidade de veículos de comunicação, como a Internet, celulares, etc., oferecendo uma paleta muito ampla de gêneros musicais. Tem muita coisa boa rodando por aí, mas o mercado musical tradicional, alimentado pelas rádios, TVs e pelas vendas de CDs/DVDs se estagnou, não houve renovação e há poucas novidades interessantes que conseguem popularidade, daí a impressão de que o panorama está péssimo. Na realidade, sempre foi péssimo o gosto mais rasteiro e sempre se gravou porcaria pra vender quantidade; sempre se ganhou muito mais dinheiro - e mais rápido - com lixo musical, com composições muito abaixo da crítica. O problema é que as exceções foram ficando mais raras de aparecer para o povão e entre os inúmeros fatores que levam a isso está a manipulação da grana, do jabá, do marketing pago, o que complicou ainda mais. As rádios têm faturamento baixo, deficitário e são muito numerosas, porque foram distribuídas politicamente entre parlamentares e seus amigos. Como têm que se manter - e sem anúncios, porque a TV engole todas as verbas de publicidade -  os horários, os minutos, os segundos no ar têm que ser todos vendidos. Este é o quadro lamentável gerado pelo famoso e abominável Jabá. Como se tem que pagar e quem investe em jabá precisa ter retorno imediato, então, privilegiam as coisas mais evidentes de poderem  estourar  e fazer sucesso para o povão, para a massa.

Em que grau seria positivo termos a disciplina música efetivamente no currículo escolar?
Seria muito importante, mas também seria fundamental o Brasil ter rádios universitárias, uma em cada Faculdade de Comunicação. Assim é que se mantém a música americana. Mas sabe quando uma lei dessas será aprovada pelos 513 deputados e 81 senadores que têm mais de 2000 rádios nas mãos?...

O que é o Instituto Planeta Água?
É uma ONG sem fins lucrativos, voltada para a educação ambiental e ações de replantio e manutenção de manguezais e restingas.

O que estaria faltando para que houvesse um aumento do nível de conscientização ambiental, tanto das autoridades, quanto do cidadão caomum?

Falta ainda o interesse como negócio.  Enquanto a questão for tratada meramente como “corretamente ecológica”, o assunto meio ambiente não decolará. Quando o meio ambiente for transformado em grana, em poder, a biodiversidade e a qualidade de vida se constituirão nos segmentos preferenciais, se transformarão numa atividade à parte, rentável e, portanto, do interesse de todos.

A educação ambiental deveria estar também no currículo escolar e os meios de comunicação poderiam contribuir para aumentar a eficácia de um amplo trabalho de conscientização ambiental em nível nacional?
Isso já existe e já melhorou muito. Tenho uma ideia que um dia vingará: para cada criança de cada grupo escolar, seja de escola pública ou privada, deverá ser obrigatório o plantio de um grupo de árvores.  Anualmente, durante a idade escolar, a criança, o jovem,  plantaria uma muda de  árvore de madeira nobre em extinção  (Jacarandá, Pau Brasil, Maçaranduba, Pau D´Arco, Peroba, Angelim, Cedro, etc.) e uma de frutífera de interesse imediato (Manga, Caju, Jabuticaba, Abacate, Jaca, etc.). Ao fim de seu curso, aos 18 anos,

“Os governantes estão perdendo completamente sua credibilidade. Para o senso comum, são mesmo um bando de ladrões. Sabemos que não é bem assim, que tem gente legal interessada no bem público. Mas o fato é que há um clima generalizado de descrédito na classe política, nos governantes”

cada jovem brasileiro terá um grupo considerável de árvores de sua propriedade, com escritura pública, em parques, praças e terrenos públicos. Aos 30 anos, das suas árvores de madeiras nobres  será selecionada uma parcela para corte e venda da madeira. Cada jovem brasileiro terá então garantida e paga a sua casa própria. Mas a quem isso iria interessar? É o que podemos perguntar: quem ganha com a devastação, com o o atraso, com a pobreza?... Mesmo assim, tenho esperança de que um dia tudo isso vai mudar porque a humanidade sempre parece caminhar para o desastre, mas segue inexorável para o aprimoramento. É fascinante!

De que maneira o crescente desmatamento do Cerrado, da Mata Atlântica e da Amazônia, para não citar outros biomas, pode afetar o futuro da Terra e o que fazer para frear a sede de lucro dos desmatadores e tirar o governo da inércia em que se encontra?
Não adianta chorar nem ficar resmungando  e repetindo o mesmo papo furado de sempre. O Brasil é o maior produtor rural do mundo e essa é a nossa vocação. A prioridade mundial deveria ser o controle da natalidade humana. É precisa parar de nascer gente com fome, com sede, extraindo tudo da Terra e produzindo toneladas de cocô, de lixo, de poluição. O problema é esse.  Quanto à biodiversidade, acredito que já estamos entrando em uma nova era, uma era em que o produtor investe para ter lucro com o patrimônio natural.

Da forma que está o novo Código Florestal representa avanço ou retrocesso?
Ambas as coisas. Os dois lados da moeda. Representa avanço na normatização de uma situação de irregularidade crônica e na afirmação de um novo pacto com os produtores. Para os ambientalistas, é um retrocesso porque anistiou os autores de crimes ambientais e liberou quase que geral pra quem quiser destruir. Mas a realidade é mesmo essa: o governo não tem capacidade de gerenciar nem mesmo os banheiros dos palácios. Há uma falência múltipla das políticas públicas. Os governos estão morrendo, no mundo todo e se transformando em corporações públicas. Os governantes estão perdendo completamente sua credibilidade. Para o senso comum, são mesmo um bando de ladrões. Sabemos que não é bem assim, que tem gente legal interessada no bem público. Mas o fato é que há um clima generalizado de descrédito na classe política, nos governantes.

O que a sociedade poderia fazer para que a PEC do Cerrado, engavetada há quase duas décadas, fosse votada pelo Congresso Nacional?
Vou ser cruel: a sociedade vai ter que fazer uma vaquinha, ou melhor, uma vacona.

O que significa para você ser homenageado pelo trabalho musical e ambiental com o Prêmio Planeta Água de Consciência Ecológica?    
Uma honra muito grande.

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