Cerrado: um bioma a caminho da extinção: Plantio de soja chega a Águas Emendadas e o Cerrado corre risco de ser extinto antes mesmo de se tornar patrimônio nacional
Matéria publicada em 09/01/2011, às 13:48:38

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Considerado a coluna vertebral ambiental do Brasil o Cerrado é o bioma que conecta todos os outros biomas do país, sendo a Amazônia ao norte, a Caatinga ao nordeste, a Mata Atlântica a sudoeste e o Pantanal a oeste. Gradualmente, as fito fisionomias desses diversos biomas se transformam umas nas outras em nosso enorme país. Dentre as savanas do mundo, o Cerrado é a que possui a maior diversidade de flora. Espécies como o pequi (Caryocar brasiliensis), o buriti (Mauritia vinifera), o baru (Dypterix alata Vog) e o araticum (Annona crassiflora) são algumas de uma infinidade de frutos que o bioma cerratino oferece. As espécies medicinais se alastram abundantemente, assim como as oleaginosas. De tão curativo e cicatrizante os ‘poderes’ do Barbatimão (Stryphnodendron obovatum Benth), aplicado nos casos de úlceras externas e internas, existe matuto que não bebe do seu chá temendo fechar ‘a boca do estômago’.

Cerrado: Um bioma à caminho da extinção

Ponta cabeça
O povo diz que o Cerrado é uma floresta de cabeça pra baixo. Acostumado com tempos de estiagem e incrivelmente adaptado ao fogo, suas árvores se desenvolvem com raízes profundas sob a terra, guardando mistérios invisíveis aos olhos. Na prosa de Guimarães Rosa ou na poesia de Nicolas Behr, o Cerrado é vivo e com movimento, tortuoso e rico. A vegetação se presta como suporte de uma cultura interiorana forte e singular. Nos textos do eco-historiador Paulo Bertrand discutia-se como o Cerrado pode evoluir, junto com essa cultura, criando assim o conceito de Homo cerratensis.

Planalto Central
O Planalto Central, área núcleo do Cerrado, é habitado há mais de 45.000 anos. Uma conjunção de fatos torna esse lugar muito relevante do ponto de vista geográfico e hidrológico, fazendo essa área muito visada tanto por povos ancestrais quanto por bandeirantes, ou pelos visionários da nova capital do Brasil, ou ainda, mais recentemente pelos grandes especuladores imobiliários. Dessa região privilegiada, mais especificamente a partir da região das Águas Emendadas, partem as principais nascentes e afluentes que vão originar três das mais importantes bacias hidrográficas que correm, divergindo direções, para os extremos do continente. São as bacias Prata/Paraná, Tocantins/Araguaia e do São Francisco.


A pesquisa agropecuária transformou o Cerrado brasileiro, que hoje possui enorme destaque no cenário agrícola nacional e mundial. Graças aos trabalhos de desenvolvimento de cultivares e tecnologias adequadas, o Cerrado abriga 41% dos 163 milhões de bovinos do rebanho nacional e é responsável por 46% da safra brasileira de soja, milho, arroz e feijão; sendo que, das 35 milhões de toneladas de soja produzidas no país, 18 milhões saem do Cerrado.

Agricultura
São 50 milhões de hectares de pastagens cultivadas, doze milhões de hectares de culturas anuais e dois milhões de hectares de culturas perenes e florestais.
O cenário, tradicionalmente caracterizado pela soja, o milho, o arroz e o café, foi enriquecido com a presença do algodão, da mandioca, e, mais recentemente, com o plantio do girassol, da cevada, do trigo, da seringueira e dos hortifrutigranjeiros.

Ocupação
O bioma Cerrado serviu como local de assentamento de povos primitivos, datados de 15.000 anos ou mais. No século XVII iniciou-se um lento processo de ocupação movido pelo interesse por ouro e por pedras preciosas, surgiram pequenos povoados da região de Cuiabá ao Triângulo Mineiro e nos estados do Tocantins e Maranhão.

Entretanto a ocupação acelerada e desordenada do bioma Cerrado teve início com a construção de Brasília e a adoção de uma política de expansão agrícola baseada num modelo de exploração fundamentalmente extrativista e, por vezes, predatório. A intensa ocupação por populações e atividades, até então inexistentes, vem transformando as paisagens do bioma e os modos de vida das populações tradicionais, causando impactos ambientais e sociais imensuráveis.

Um exemplo dos impactos refere-se às populações tradicionais, os indígenas, quilombolas, geraizeiros, vazanteiros, sertanejos e ribeirinhos, forçados a migrações constantes e atualmente confinados às Terras Indígenas ou áreas marginais e, desse modo, adaptando seus modos de vida à disponibilidade de recursos e aos conflitos locais.

Extinção
Depois da Mata Atlântica, o Cerrado é o ecossistema brasileiro que mais sofreu com a ocupação humana. O desmatamento para a retirada de madeira e a produção de carvão foram as atividades que antecederam e viabilizaram a ocupação agropecuária no bioma - e que persistem até os dias de hoje. Estima-se que atualmente cerca de 87% da área do Cerrado já perderam sua vegetação natural.

Relatório
Um relatório da organização não governamental Conservação Internacional estima que 2,2 milhões de hectares de vegetação nativa do bioma Cerrado são perdidos anualmente e que se mantidas as tendências de ocupação e de perda da vegetação, o Cerrado estará totalmente destruído em 2030 para infelicidade das futuras gerações.


 


 

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