Radialista Miguel Squeff: O Rádio anapolino ficou restrito a duas emissoras AM e FM
Matéria publicada em 04/06/2010, às 11:52:48

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O radialista Miguel Jorge Squeff, filho de tradicional família anapolina, descende de sírios e italianos. Seu pai, Miguel Jorge, com raízes paranaenses em Prudentópolis e sua mãe, Almerinda Miotto, mineira de Ouro Fino, se transferiram para Anápolis onde Miguel nasceu há 63 anos. Os irmãos Maurício, Miriam e Maria Cecília são todos também anapolinos.
Depois de se firmar como um dos mais conceituados narradores do rádio esportivo brasileiro, Miguel Squeff tornou-se empresário dessa área e também do setor de cerâmica vermelha, com empresa instalada em Campo Limpo de Goiás.
Miguel Squeff, que em 1990 narrou os jogos da Copa do Mundo, posou ao lado de Zico, em Turim, na Itália (foto), nos concedeu esta entrevista.

Como se deu seu ingresso no rádio?
Estudei no Colégio São Francisco, que realizava solenidade religiosa especial todo dia 4 de outubro, Dia de São Francisco, na Praça Santana e os padres franciscanos tinham uma rádio chamada Rádio Santana que funcionava no Colégio São Francisco.
A solenidade acontecia na Praça Santana, no centro de Anápolis, onde fiz uma apresentação de uma parte da Bíblia que foi transmitida pela rádio e minha voz agradou ao Frei José Sullivam que era o diretor da rádio. Então, ele me convidou para um teste de locução. Fiz o teste com muita empolgação e fui reprovado.
Eu tinha 18 anos e o Frei me disse que havia se enganado, que minha voz era muito aguda. Muito tímido, praticamente um roceiro, pois fui criado nos fundos da região do Córrego Catingueiro onde é hoje o Jardim das Oliveiras, enfrentei enormes barreiras para fazer o teste que ocorreu no mesmo período em que prestava o serviço militar. Eu morava no Colégio São Francisco e o Tiro de Guerra era ali perto.
Todo dia eu estava na rádio e, com uma boa noção de português e uma boa prática em datilografia, me envolvi com a rádio e acabei vencendo por teimosia.

O diretor reconheceu o meu esforço, o meu trabalho e, no final do ano, me deu uma gratificação. Fiquei tão feliz que fui correndo do Colégio São Francisco até a casa dos meus pais, no Jardim das Oliveiras, para entregar a minha mãe o meu primeiro salário como radialista. Mas não falava em microfone. Em 1965, na decisão do campeonato goiano entre Anápolis e Vila Nova, no Estádio Jonas Duarte, coincidentemente não tinha ninguém para fazer o plantão.
O narrador da equipe era o Antônio Afonso de Almeida e ninguém queria ficar de plantão. Todos queriam ver o jogo, uma decisão do campeonato que acabou sendo conquistado pelo Anápolis e este era o assunto em toda a cidade. Se o senhor quiser, eu faço o plantão, disse para o Antônio Afonso, tal era a vontade que eu tinha de falar, tal era minha paixão pelo rádio.

Fiz o plantão e ele me acionou muito pouco, mas fui bem e passei a integrar a equipe de esportes da Rádio Santana, primeiro como plantonista, depois como redator, apresentador e, mais tarde, como repórter. Depois fui contratado pela Rádio Carajá, então dirigida pelo Plínio Gonzaga Jaime e pelo Nelson Eleutério, na Barão do Rio Branco, onde permaneci até 1971 quando foi inaugurada a Rádio São Francisco. Habib Issa, Ferraz Júnior e Geraldo Arantes, então conselheiros da rádio, me convidaram para integrar a equipe da São Francisco onde me firmei como apresentador de programa e gerente comercial.
Ali comecei a trabalhar na área de vendas e, juntamente com o frei João Batista Vogel, a gente lançou a 96 FM, que foi a segunda FM do Estado de Goiás.


Mas você não permaneceu na Rádio São Francisco...
Fiquei na São Francisco até 1979 quando saí depois de uma mudança no comando. Com a chegada de um padre novo acabei deixando a rádio onde eu era diretor comercial, chefe do departamento de esportes, gerente de programação, enfim, um faz tudo. Houve um desentendimento, deixei a rádio e no dia 1º de abril de 1979 fundei minha empresa, a Miguel Squeff Produções e Propaganda.
São 31 anos com o mesmo CNPJ, graças a Deus e com todas as certidões negativas em dia. Passei a comprar horários, primeiro na Rádio Carajá que  estava desestruturada e, em 1980, a convite do nosso saudoso Luis Carlos Cecílio e dos companheiros José Cunha Gonçalves e Bill Fanstone, fui para a Radio Imprensa, terceirizando o horário de esportes, onde fiquei por 12 anos. Aquele foi um período maravilhoso até porque foi ali que consolidei minha carreira como profissional e empresário de rádio e agradeço a Deus por tudo isso.

Você fez também uma incursão pela televisão e hoje é empresário do ramo de cerâmica?
Nesse mesmo período fiz o meu deby na televisão e a minha foi a primeira cara a aparecer na TV Tocantins, num programa ao vivo – o Esporte no 7, que antecedia o Globo Esporte -  e que produzi,  editei e apresentei durante 10 anos.
O Esporte no 7 só saiu do ar em razão das mudanças que aconteceram. Deixei de ser o dono do horário de esportes e fui gerente comercial da TV Tocantins durante quatro anos, no período em que o Vilmar Guimarães Júnior era um de seus sócios proprietários. Em 1986, eu, meu irmão e um primo, compramos uma cerâmica em Campo Limpo.
Foi uma espécie de volta às origens porque nasci dentro da cerâmica dos meus tios e meu pai era ceramista. Afastei-me um pouco da televisão e passei a me dedicar à minha empresa de comunicação, gerando programação e fazendo também a minha atividade na cerâmica Eldorado.


Como e quando você despertou para a narração?
De 1971 a 1973, na São Francisco, cresci muito profissionalmente e passei a ser um faz tudo. Respondia pelo departamento de esportes, pela gerência comercial, pela programação, enfim, era um trabalho fantástico e teve um período, de 1973 para 1974, em que a rádio ficou sem narrador.
O Anápolis ia jogar com o Botafogo de Buriti Alegre e eu falei para a equipe que iria lá transmitir o jogo. Com enorme dificuldade técnica, fui e fiz a minha primeira narração, por sinal uma narração ridícula, depreciativa da qual, felizmente, não tenho nenhum registro, graças a Deus.
Eu tinha um bom relacionamento com os empresários Júnior Abdala e Carlos Alberto, da CCA Automóveis que receberam a visita do Melchior Duarte, então presidente do Goiás Esporte Clube que iria estrear no Campeonato Brasileiro. O Júnior me apresentou ao Melchior, fizemos amizade e ele me disse ter interesse na praça de Anápolis.
Eu tenho uma rádio nova em Anápolis que entra rachando em Goiânia, disse ao Melchior que respondeu que queria uma concorrente entrando na capital.

Resultado: o Júnior bancou as passagens aéreas da equipe, o Melchior bancou as diárias e eu banquei a narração numa parceria inédita com o Goiás que durou cinco anos, até 1978. Convivendo no meio, ganhei experiência, viajei o Brasil inteiro fazendo os jogos do Goiás e minha vida era uma loucura. Descia e subia de avião o tempo todo e o Campeonato Brasileiro, naquela época da ditadura militar, era aquela velha história: onde a Arena vai mal, time no nacional.
Então o campeonato tinha 100 times e era um sobe e desce danado. Fiquei até 1977 cobrindo o Goiás no Brasileiro e, em 1978 veio a Anapolina que em 1979 disputou o Campeonato Brasileiro e me envolvi por inteiro.

A cidade montou um time fortíssimo e fomos roubados pelo Goiás em 1981 quando tomaram o título da gente no tapetão. Assumi posições duríssimas, fiz críticas, xinguei, arrumei briga e confusão e o Goiás rompeu comigo. Até hoje, o Harlei Pinheiro me olha com desconfiança. Dia desses falei para ele que desconfiança quem deveria ter era eu porque foram eles que tomaram o titulo da gente. Veio o Campeonato Brasileiro, uma fase áurea, eu estava com o rádio, com a agência de propaganda e com a televisão e minha vida deslanchou.
Éramos a única rádio que fazia futebol, a Imprensa, pois havia deixado a São Francisco em 1979 e o nome da equipe era “Os Titulares do Esporte”.


Quando voltei para a São Francisco, em 2000, o Frei Valdair, que era diretor da rádio sugeriu que associássemos o nome da equipe ao nome da rádio e também porque a rádio passara a ser dona da equipe cujo nome passou a ser Titulares da São Francisco.
A partir de 2006, voltei a terceirizar o horário de esportes na São Francisco e mantive o nome, até por uma questão de respeito à radio da qual gosto muito.
Minha vida está ligada a essa rádio e aos padres franciscanos e muita gente diz que tenho a cara da Rádio São Francisco. Trabalhei na Manchester, trabalhei na Imprensa, mas o nome Titulares da São Francisco ficou perpetuado.
A equipe se firmou como uma das mais sólidas e mais respeitadas do rádio esportivo brasileiro e o carinho com que eu e toda a equipe somos tratados em qualquer lugar do país é algo extremamente gratificante e que valoriza e estimula um trabalho feito com muito profissionalismo e dedicação.
Não existe nada mais gratificante na vida do que fazer o que gostamos.


O rádio ainda é o grande veículo de comunicação em Anápolis?
O rádio em Anápolis perdeu muita força em razão de que perdemos emissoras historicamente importantes. Primeiro foi a Rádio Carajá, a nossa querida ZYJ-3, uma das assinaturas mais lindas que já vi e que eu me arrepio até hoje só de falar: “A voz do coração do Brasil!”...
Que coisa linda. Perdemos a Carajá que acabou sendo vendida para um grupo de padres italianos e hoje se chama Rádio A Voz do Imaculado Coração de Maria, perdendo toda aquela característica de um veículo de comunicação ligado à cultura da cidade. Lembro-me que a Carajá escreveu histórias, fez teatro, humorismo, revelou talentos extraordinários e tinha um jornalismo fantástico. Quem não se lembra dos idealizadores e apresentadores de “O mundo no ar”? Geraldo Soares, Clóvis Guerra, Walter Cançado, todos eles profissionais de primeira linha.
Quem não se lembra de Isaac Abrão que foi trabalhar na Rádio Nacional do Rio de Janeiro e olha que naquela época trabalhar na Rádio Nacional era como apresentar o Jornal Nacional hoje. Perdemos a Rádio Imprensa, negociada para um grupo evangélico e, com ela, perdemos uma grande referência e perdemos a 100FM, também negociada com um grupo evangélico.
A Rádio Tabajara FM foi vendida e hoje ninguém sabe se ela sequer tem endereço. Então, o rádio em Anápolis ficou restrito à São Francisco e à Manchester AM e FM. Essas são as duas rádios que alimentam, ainda com muito empenho e com extremo sacrifício e profissionalismo, um jornalismo forte e atuante.
O jornalismo esportivo tem a tradição de produzir extraordinários comunicadores de rádio e televisão e me sinto muito feliz por continuar contribuindo com tudo isso e por termos revelado dezenas de grandes profissionais que hoje engrandecem a comunicação goiana e brasileira.


Como é que você vê o debate sobre a exigência de diploma para o exercício do jornalismo?
Na realidade, a evolução do mundo e a globalização exigem uma profissionalização que não tivemos.
Não tive como frequentar uma faculdade de jornalismo ou radialismo que, por sinal, sequer existia por aqui. Recentemente fiz um curso relâmpago para ter minha capacitação profissional reconhecida e para que eu pudesse exercer a função de radialista me adaptando às novas exigências do mercado.
Na verdade, a prática acadêmica tirou muito da criatividade do profissional. Faço comentários de 30 minutos, uma hora ou três horas, sempre de improviso, sem nada escrito e ninguém acredita. Quando vejo um profissional da Rede Globo, por exemplo, que é hoje a referência na comunicação brasileira, gaguejar quando fica sem a pauta, verifico a falta de capacidade e criatividade e talvez aí esteja o grande apelo dos grandes profissionais que continuam sobrevivendo e tendo o mercado de trabalho aberto como eu sempre tive.

Eu e minha equipe conseguimos transmitir emoção aos nossos ouvintes, sabendo dimensionar quando é que temos que fazer um comentário de dois minutos e quando temos que comentar por 10 minutos; quando temos que criticar com elegância e quando temos que ser contundentes; quando temos que elogiar e quando temos de criticar sem ofender. Esse equilíbrio transmite credibilidade para as pessoas que acompanham nosso trabalho ao longo dos anos.
E olha que nós operamos numa cidade que não é uma metrópole, num mercado restrito e com grandes dificuldades, onde você tem que matar 60 leões por hora para sobreviver. Então, você oferece uma qualidade de trabalho muitas vezes superior à da realidade do mercado. Fazemos hoje um rádio de qualidade superior a 98% das emissoras de todo o país.

Companheiros nossos e ouvintes do mundo inteiro nos enviam mensagens nos cumprimentando pela qualidade do nosso trabalho o que só aumenta a nossa responsabilidade, porém, a remuneração não condiz com essa realidade.


De onde você tira jargões de sucesso como o “ta lá dentro”?
Ao longo da vida fui criando jargões surgidos de conversas com amigos e o curioso é que nomes de projeção nacional como Luciano do Vale e Antônio Porto passaram a me imitar. Hoje tem gente que acha que eu é que imito o Luciano do Vale porque ele passou a usar o “ta lá dentro”.
O Antônio Porto veio cobrir Fluminense e Anapolina aqui e levou para o Rio o “pode vibrar, torcida tricolor... É do Galo!”, um jargão que eu havia criado há tempos. Num jantar na Pizzaria Amore Mio o próprio Antônio me confessou que depois de um ano utilizando o meu jargão em nível nacional as pessoas passariam a dizer que eu é que o estaria imitando. Dito e feito. “Sai da frente Goiás!... Aqui é território da Rubra e a Rubra está pedindo passagem!”, “Sai da frente, Vila Nova!... Aqui é terreiro do Galo e o Galo está pedindo passagem!”, “Não perca o tempo! Na marca de 15 segundos...”, são alguns dos diversos jargões que criei e continuo criando como esses que são uns dos mais recentes: “Ora, não marca! Marca sim!”, “Vamos respeitar.
Tira o chapéu, Maranhão é demais” e “Prende o Maranhão da Anapolina! Invasão de domicilio!”. O que realmente me envaidece é que nada disso foi imitado, tudo foi surgindo naturalmente no convívio com o povo.


Hoje, felizmente, vejo a importância de se preservar o meio ambiente


Miguel, como foi sua experiência na vida pública?
Gratificante, valeu a pena porque atingi objetivos importantes. Quando assumi a Secretaria de Esportes, no governo de Wolney Martins, em 1992, o Ginásio Internacional Newton de Faria ficara pronto há um ano. Benjamin Beze havia assumido a Secretaria Estadual de Indústria e Comércio quando sugeri a ele que fizéssemos um comodato, passando a administração do ginásio para minha secretaria, na época denominada Fundação Municipal de Esportes e Cultura, com sede na Feira Coberta do bairro Jundiaí. Quando falei com o prefeito Wolney Martins sobre o comodato já consumado ele disse que eu estava louco e que não aceitaria administrar o ginásio.
Mudei a FUMEC para o ginásio e convidei o prefeito para um café da manhã, juntamente com o Bezinho, um mês depois de acertado o contrato de comodato “no qual só está faltando a assinatura do senhor”, disse eu ao Wolney. Nessa etapa, trouxemos o show do Roberto Carlos, o jogo entre Flamengo e Corinthians pelo brasileiro de futsal, a taça Brasil e outros grandes eventos.
Ironicamente, coube a mim, no governo de Pedro Sahium, ressuscitar aquela magnífica obra que haviam jogado no lixo e hoje, quando passo por ali e vejo aquele grandioso ginásio recebendo eventos de grandeza ainda maior, me sinto totalmente realizado.


É possível conciliar a atividade de cerâmica com a preservação do meio ambiente?
Foi uma das primeiras atitudes que tomamos quando compramos a cerâmica. Eu não levava a sério o Amador Abdala e também não levava a sério as posições de ambientalistas como Odilon Alves. Achava que ambos eram loucos, malucos, sonhadores.
Quando comprei a cerâmica constatei que o ex-proprietário havia tirado cerca de 20 mil caminhões de barro nos fundos da área, provocando uma gigantesca erosão.
Conversei com meus sócios, o Ibama havia nos dado um prazo para a recuperação e quando eliminamos a erosão e reflorestamos toda aquela área é que vi a beleza da natureza emergindo da terra.

Hoje reconheço que é esse o trabalho que a Revista Planeta Água realiza, num verdadeiro ato de sacerdócio, de dedicação e desprendimento sem visar lucro. A preocupação em preservar aquilo que vai dar a vida aos nossos filhos, saúde aos nossos netos, sobrevivência às nossas cidades, rios córregos e fontes de água é algo encantador.

Como eu era imbecil, como a grande maioria das pessoas era imbecil ao debochar de Amador Abdala quando ele brigava com quem derrubasse uma árvore. Ou quando eu via o jornalista, advogado e ambientalista Odilon Alves em suas incursões na Câmara de Vereadores e nos veículos de comunicação, alertando para a venda da área de nascentes do antigo campo do Ipiranga Atlético Clube, sugerindo a construção de parques ambientais e denunciando agressões ao meio ambiente e eu falava que ele estava ficando louco.

Hoje, felizmente e graças a exemplos como os que citei, vejo a importância de se preservar o meio ambiente e procuro agir assim, contribuindo para deixar um mundo melhor para as futuras gerações. Sem dúvida, esse é o único caminho para salvarmos o planeta.

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