A lua para a filha: A alucinante relação entre pais e filhos no mundo de conquistas cada vez mais possíveis
Matéria publicada em 16/05/2010, às 15:51:05

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Eugenio Santana é escritor e jornalista

Por Eugênio Santana

Eu entendo os pais – e me encanto com eles – que desejariam dar o mundo de presente aos filhos.
Entretanto, abomino os que, a cada fim de semana, dão tudo o que os filhos lhes pedem nos shoppings. Dar o mundo é sentir-se um pouco como Deus, que é essa a condição de um pai.
Dar futilidades como troca de amor é renunciar ao sagrado. Não dei o mundo à minha filha, mas ela quis a Lua. E não me esqueço de como ela pediu, a Lua, há anos tão distantes.

Eu a carregava nos braços, pequenina e apenas balbuciante, andando na calçada de nosso quarteirão, em tempos mais amenos, quando as pessoas conversavam às portas das casas. E foi, então, que conheci a importância e os limites humanos... Pois a filhinha – a quem eu prometera o mundo – ergueu os bracinhos para o alto e começou a quase gritar, deslumbrada: ‘Dá, dá, dá...’ Ela descobrira a Lua e a queria para si, como ursinho de pelúcia, uma luminosa bola de brincar.

Diante da magia do céu enfeitado de estrelas e de luar, minha filha me pediu a Lua e eu não lhe pude dar.
A certeza de meus limites permitiu, contudo, criar um pacto entre pai e filha: se ela quisesse o impossível, fosse em busca dele... Eu lhe dera a vida, asas de voar, diretrizes, crença no amor, e, portanto, estímulo aos grandes sonhos.
E o sonho de Nuria Liz começou a acontecer, num simbolismo que, ainda hoje, me sensibiliza o coração. Vi-a embarcar, a alma sangrando-me de saudade, a voz profética de Gibran em sussurros de conforto: ‘Vossos filhos não são vossos filhos, mas são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Eles vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem. Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.’ A certeza da separação foi lancinante...

Minha filha foi buscar a Lua que eu não lhe dera. E eu precisava conviver com a coerência do que transmitira aos filhos: ‘o lar não é o lugar de se ficar, mas para onde voltar.’ As lágrimas salgadas se transformaram em docilidade de alento com Khalil Gibran: não dando Lua à minha filha, me senti arqueiro e arco, arremessando a flecha viva em direção ao mistério.

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